Minhas impressões da transição

Faz algum tempo que não escrevo e este blog é um espaço onde coloco minhas ideias, impressões e o que sinto a respeito do meu processo de transição.
Tive um período bem complicado, ser uma pessoa trans esta longe de ser algo romantizado como na novela, apesar de achar que a novela cumpriu seu papel. Na vida real as porradas são mais frequentes.
Nesse período curto de torno de 1 mês, muita coisa aconteceu, muitas coisas intensas, tenho saído mais e muito mais feminina, é sempre uma aventura, o coração chega a sair pela boca em certos momentos, bons e ruins. O bom é que tenho pessoas boas ao meu lado e to indo em lugares bacanas, o ruim é que ainda não me sinto com o corpo que gostaria e ainda as pessoas (principalmente homem) me vem como algo pejorativo. Os homens são engraçados vejo muitos olhares de desejo, mas não vejo nenhum disposto a sentar e tomar uma cerveja comigo.
Com relação a minha situação amorosa, acho que não é segredo pra ninguém o que se passa comigo, mas não to afim de falar sobre o que se passou ou passa. Sei que, como disse, homens não tão afim de me convidarem pra tomar uma cerveja e mulheres não vejo uma querendo relação com uma trans.
A coisa boa de tudo isso que ainda estou viva, tirando forças não sei da onde (na verdade eu sei), buscando a cada dia o meu ideal feminino e cada saída na rua ser mais feminina.
Sair na rua é sempre uma aventura, ainda não consigo sair sem disparar o coração, mas quando saio acompanhada, fico mais tranquila. Ainda uso a tática de não prestar muito a atenção ao redor, isso de certa forma é ruim, pois acabo perdendo a interatividade com as pessoas. É muito ruim, por exemplo, ir ao supermercado próximo se ser a piada dos funcionários, ainda mais que muitos sabiam como eu era antes. As piadinhas são sempre risadinhas, risonhos, aí quando se olha para os indivíduos há um silêncio ensurdecedor.
Escuto muito sobre como sou corajosa, tem dias que duvido disso, pois me perco em pensamentos de futuros incertos.
Ainda sofro da depressão e de crises de pânico, justo eu que não tinha medo de nada, só que agora não tenho mais armadura. Tive dias terríveis, onde só se vê saída para um lugar só, logicamente sempre tenho um freio, dois na verdade, de não procurar uma alternativa rápida. Acredito, e não é só eu que penso desta forma outras estudiosas também, o suicídio para pessoas pessoas trans, não são suicídio e sim assassinatos, pois a pressão que a sociedade poe é muito grande, eu de certa forma ainda tenho alguma estrutura, imagina quem não tem, familiar, profissional, social.
O que mais me irrita em todo esse processo, é escutar que devo aceitar certas coisas, aceitar a decisão de pessoas, aceitar que as coisas não mudam, é sempre aceitar, aceitar, aceitar. As pessoas sempre olham pelo prisma das pessoas cis, porque não olham como uma pessoa trans, porque que é que as pessoas sempre me vem e falam que devo entender e aceitar a decisão das pessoas, porque ninguém vai a essa pessoa e fala sobre aceitação, porque que todo encargo de aceitação tem de ficar comigo, já carrego muita coisa. Vejo certos posts e comentários que me irritam muito, mas tenho de fingir que esta tudo bem.
Muita coisa mudou pra mim, muitas pessoas que estimo ou estimava muito, não me chamam mais pra fazer churrasco ou pra qualquer atividade, nem fazem parte da lista de amigos do Facebook, não sei o que pensam, muitos ainda nem vieram falar comigo e isso me magoa, pois quero saber em qual parte eu errei.
O que me dá grande alívio são as amizades que adquiri, de mulheres que me enxergam como mulher, que posso fazer compra como mulher, falar de coisas sem ter o filtro homem/mulher. Estas amizades tem me ajudado muito no meu processo.
Falar de algumas coisas não são fáceis pra mim, mas a decisão de escrever não foi fazer um texto de ficção.

Bjs

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