Crises, depressão e suicídio

Falar em depressão, crises de ansiedade e suicídio, é um tabu, mas acredito que é algo que se deva falar. Quero falar desse tema pois este mês há uma grande campanha sobre o tema e também faz um ano desde que assumi.
Vamos lá...
Em uma pesquisa sobre casos de suicídio, no site http://www.nlucon.com há uma matéria sobre um seminário que debatem o assunto na população trans, o que acredito que é pura realidade tanto por experiência como contato com outras pessoas trans. Segue trecho da matéria (link matéria).

De acordo com a presidenta da CAIS, Renata Peron a ideia partiu depois de perceber que, além dos crimes e violências transfóbicas, vários casos de suicídio de pessoas trans foram divulgados recentemente, provocando um alerta. “Apesar de ser considerado um tema tabu, passamos a querer entender fatores, causas e debater para conseguir mudar essa triste realidade. Sabemos que estas mortes não são isoladas, que elas são motivadas pelo Estado, pela política que não contempla esta população e pela sociedade transfóbica que faz com que essas pessoas queiram se matar”, diz.
O Brasil é o 8º país com o maior índice de suicídio no mundo (segundo a Organização Mundial de Saúde), a maioria dos casos ocorrem entre jovens de 15 a 29 anos, sobretudo entre pessoas do gênero feminino. É apontado como um grave problema de saúde pública. Mas entre a população trans ainda carecem dados, debates e pesquisas.
Recentemente, um relatório chamado "Transexualidades e Saúde Pública no Brasil", do Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT e do Departamento de Antropologia e Arqueologia, revelou que 85,7% dos homens trans já pensaram em suicídio ou tentaram cometer o ato. Mas não aprofundou sobre as motivações e outros dados sobre o tema. 
Antes de entrar no assunto, para poder introduzir, quando vivia como Nivio eu era uma pessoa forte, ou que apresentava forte, não sei como conseguia absorver todos os impactos, só que esse período como homem me custou muito caro. Quando me ví transgênera me senti como a pessoa mais frágil do mundo. Falei sobre isso na postagem sobre armadura.
Vou ao meu caso, quando assumi, não foi por uma vontade espiritual, foi por extrema dor, já não conseguia trabalhar, as crises de pânico, ansiedade, tristeza profunda, que já vinham a anos ficaram cada vez mais frequente. Elas ocorriam da seguinte forma no começo, quando minha esposa estava em casa, estava bem, assim que ela saia, tudo começava, uma necessidade enorme de externar minha condição, então partia para usar roupas, mas como não podia sair do quarto, acabava entrando na internet e ali gastava horas, depois vinha a culpa, uma culpa profunda de que não estava produzindo, não estava sendo útil, estava enganando, etc, entrava em um arrependimento profundo prometendo que no dia seguinte não faria isso, em vão. Pensei várias vezes em procurar ajuda, mas o medo de falar me impedia, "como poderia um cara como eu ser transgênero".
Chegou um momento onde já não aguentava mais e a medida que aumentava a necessidade de me vestir de mulher, aumentava minha curiosidade em buscar mais sobre o assunto, quanto mais achava mais me identificava, ao ponto de não haver mais dúvidas. Mas como falar, como iria contar a minha esposa, as dúvidas tomavam conta da minha cabeça e as crises de ansiedade aumentavam. Mais havia necessidade de me vestir, assistir vídeos, de passar horas na internet, o arrependimento aumentava, mais eu prometia que ia parar, passei a ter crises de choro. Sabia que não havia mais o que fazer a não ser contar, e a coragem, onde estava? Havia um medo profundo de perder tudo.
A religião nesse ponto começou a pesar, não que ela proibisse, mas a minha culpa de não conseguir mudar, pois essa era uma das minhas propostas, mudar, era o que eu mais desejava na vida. As reuniões, principalmente as que eram para os homens, eram as piores, me sentia um traidor, meu  fardo aumentava em cada atividade do grupo e toda vez dobrava minha decisão de mudar. Isto era um cobrança interior, mas não se muda a essência.
Então chegou o grande dia, pedi que ela não fosse trabalhar e embaixo de uma cachoeira de lágrimas e com a voz embargada, que mal saia, falei a frase, sou transgênero, sou mulher. Claro que houve um choque por parte dela, mas como ela tem um enorme coração me abraçou em lágrimas e disse que me ajudaria. Nesse momento me senti a pessoa mais feliz e amada do mundo, havia atingido meu estado supremo. Tudo iria mudar a partir desse ponto, agora é diferente, coloquei em minha cabeça.
Alguns dias se passaram em êxtase, numa felicidade sem limites e a medida que os dias passavam a ficha caia, como irei viver, como usarei roupas de mulher, como falarei aos meus filhos, meus irmãos, os amigos, o pessoal da organização, trabalho, sócio, etc. Eu pensava e remoia todos esses assuntos numa velocidade absurda no cérebro, minha cabeça explodia. Não sabia se continuava ou voltava. As crises de choro voltaram. Não trabalhava, não conseguia, sentava na frente do computador não conseguia fazer outra coisa a não ser pesquisar, ia pra marcenaria, assim que descia a escada, sentia as pernas fraquejarem, tinha tontura, taquicardia, falta de ar, sentava e achava que ia morrer. Sabia que isso era minha cabeça. Muitos dias o que conseguia fazer era sentar a frente do oratório, chorar e tentar recitar daimoku (recitar o mantra). Quando a Betânia chegava, eu era um farrapo.
Aí começaram as buscas por ajuda (falarei em outra postagem).
As crises de ansiedade eram diárias, praticamente; sabia que estava em depressão. E quanto mais pensava, não via saída, muitas portas passaram a se fechar, algumas pessoas que procurei pensando em ajuda, me deixavam muito pior, ninguém sabia o que era ser transgênero e me mostravam ainda mais dificuldades em como seria minha vida.
Não havia saída pra mim, enfrentar o mundo seria muito pesado, então passei a pensar em suicídio, sabia que não podia, tinha meus filhos, tinha o que acreditava no budismo, mas era um pensamento recorrente. Minha vida era tão desgraçada que não podia nem me matar. Passava os dias chorando.
Encontrei uma psicóloga, melhorei um pouco. Assim que passei a me vestir em casa, as crises diminuíram um pouco, mas a medida que ia tentando resolver minha situação com organização, família, sociedade, elas voltavam e o pensamento tomava conta de mim.
Pensei inúmeras vezes , chegava a planejar, mas como seria meus filhos, pensava no caçula sem pai, era uma idéia horrível deixá-lo orfão, então buscava todo o resto de força que tinha. Fiz muito daimoku pra banir esse pensamento. A ideia era tão forte que cheguei planejar a acertar minha vida para deixá-los em uma boa condição, para que eu pudesse ir sem me preocupar tanto. É horrível pensar essas coisas, choro ao lembrar disso. 
É muito ruim passar por isso. A depressão tira as suas forças, precisei de muita ajuda. Ela ainda não me abandonou, mas o pensamento suicida já não me perturba mais. 
Busco na concentração budista a força pra superar, meus amigos foram e são essenciais e a cada dia que um amigo me dava incentivo, conseguia mais forças para vencer.
Sei que é um relato triste, mas é verdadeiro, espero que de alguma forma alerte as pessoas sobre a questão da depressão e o suicídio. 

Bjs








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