Breve Relato

Este texto é um breve relato, da minha vida, que dei uma reunião budista somente para mulheres.


Boa noite

Me pediram pra fazer este relato, no começo eu relutei bastante, porque pra mim ainda estou num processo bem complicado. Mas aceitei pra poder explicar melhor algumas mudanças que estão ocorrendo comigo, como eu ouvi falar “o Nivio tá meio diferente”...rs.
Como que esse “cara” tem haver com uma reunião da divisão feminina… pra mim tudo… para o que é correto também. Até hoje eu nunca tinha feito um relato sobre minha vida, nunca perceberam que nunca falei sobre mim, mas sim sobre as coisas que conquistei...
Hoje é uma data bastante especial, por 3 motivos, 1 - hj é a minha primeira reunião oficial na divisão feminina (perguntar: estou correta, né), 2 - hj é o Gongyokai da DF e 3 - hj é aniversário da minha mãe. Então é uma data muito especial pra mim.
O que está diferente em mim é que resolvi me revelar como a pessoa transgênera que sou.
Pessoa transgênera é a pessoa que não se identifica com o gênero que lhe foi atribuído ao nascer… mas peraí, gênero é atribuído? a pessoa não nasce homem e mulher? como vc fala atribuído? Sim, os valores do ser humano são atribuídos à ele de acordo com o genital com que ele nasce. Uma grande estudiosa sobre gênero Simone de Beauvoir disse: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, da mesma forma é o homem, torna-se homem. Para algumas pessoas essas normas de gênero atribuídas causam grande transtorno, essas pessoas são as pessoas trans. [se necessário explicar a palavra trans] O que não podemos confundir é com a orientação sexual; orientação é com quem a pessoa quer se relacionar, ela pode ser hétero, homo, bi ou até pansexual. Letícia Lans, socióloga, mulher trans diz que sexo genital está entre as pernas, orientação sexual esta no coração e gênero está na cabeça.
A minha história é muito parecida com todas as pessoas trans, há uma identificação muito cedo com o outro gênero, mas as vivências são diferentes.
Resolvi me revelar trans, para a Betânia (Betânia é minha esposa, se tiver alguém que não me conheça) o ano passado, no primeiro instante foi como se tivesse tirado um caminhão das minhas costas, mas no dia seguinte foi todo o peso do mundo; eu pensava: como seria agora? como faria? como seria a relação com meus filhos? com minha esposa? como seria na organização? etc. Eu não sabia o que fazer e logo pensei que seria mais fácil em não existir do que enfrentar tudo que teria de enfrentar.
Mas se é tão complicado, porque não continuava como sempre foi? Eu já não aguentava mais ser o que era, eu já não conseguia viver tranquilamente, e a cada dia que passava a situação piorava, já não conseguia trabalhar, tinha crises de ansiedade, medos, etc passava as tardes chorando ou tendo crises compulsivas. A situação piorava a medida que eu tinha certeza e entendia o que sou. Eu passei anos estudando minha situação, tanto pelo lado da ciência sociedade e  com relação ao budismo.
Com relação ao budismo, não há nada que justifique como um erro, pelo contrário só comprova que devo ser o que sou. Algumas coisas que comprovam são os 10 fatores (aparência, natureza, entidade, poder, influência, causa interna, relação, efeito latente, efeito manifesto, consistência do início ao fim), como também a história do bodhisatva Jamais Desprezar, entre outros. Mas quando Sensei falou que as pessoas que mais sofrem serão as mais felizes e que devemos respeitar todas as flores, já não tinha mais dúvida nenhuma.
Mesmo depois de contar a Betânia, não conseguia seguir a vida tranquilamente, a depressão tomava conta de mim, chorava muito, perdia trabalhos, mas as quando mais precisamos as ações benevolentes dos budas nos fazem as ações, tive o apoio de uma grande amiga, Maria Helena (foi a primeira pessoa que contei, depois da Bê), me pôs em contato com uma psicóloga que me ajudou muito, a qual tenho muita gratidão, e sem me cobrar nada, fazia atendimento toda semana. Também me apresentou uma mulher trans, Melissa, moradora daqui de Caraguá e que faz palestras sobre o tema da diversidade humana, ela tem esposa e uma história muito parecida com a minha, se revelou já casada e etc. Conheci amigas trans pela internet, Mariza, Abby e muitas outras, amigas do coração, mesmo a distância, cada uma com uma história de vida singular e de luta. Sem contar o casal de amigos Tati e Jorge (maravilhosos). Fui tendo apoio e fortalecendo aos poucos, mas mesmo assim altos e baixos. Muitas vezes a única coisa que conseguia fazer era vir aqui e fazer daimoku e o que me mantia em pé e vivo era a fé que tenho no budismo, e os anos de estudo do budismo me asseguravam de não fazer nada de errado.
No dia 14 de Dezembro sabia que o Nivio não existia mais, que ele tinha cumprido a sua missão. Durante o gongyo da noite foi como se eu tivesse feito a minha Tatsunokuti, abandonar o provisório e revelar o verdadeiro. Nesse dia confirmei meu verdadeiro nome, Alice. Tive como inspiração a história da Alice no País das Maravilhas e na Senhora Alice Harue.
O budismo é tão verdadeiro que o universo conspirou a meu favor, pois nunca se falou tanto na questão das pessoas trans como agora, teve programa especial na Fátima Bernardes, e no domingo dia 12 de março teve uma reportagem especial no Fantástico chamada “Quem sou eu”, falando sobre a vida de pessoas transgêneras e para minha surpresa eles usaram a história da Alice do País das Maravilhas para contar como é ser transgênero, quase caí de costas quando ví isso, e eu só chorava. E não parou por aí, esta passando atualmente uma novela onde há um personagem de homem trans, mostrando todos os traumas de uma pessoa trans.
Consegui contar a toda minha família, todos aceitaram sem problema. Mas tive muito medo em contar para meus filhos. Contei primeiro a Vitória, que chorou me abraçando e dizendo que me amava, no dia seguinte já falava que agora eu tinha de dividir minhas coisas com as duas. Um bom tempo depois contei a meu filho, Edson, 7 anos, tive muito receio, não sabia como contar, e em uma terapia, a terapêuta me falou “você sabe desenhar, desenhe, você sabe contar histórias, conte”, e quando o chamei e perguntei se ele sabia o que era uma pessoa trans, ele prontamente falou, sei, ví no Fantástico, disse, “então filho, papai é assim”, ele fez uma cara de choro (mas não de tristeza), sorriu e me abraçou, fiz desenhos pra ele. Acredito sinceramente que toda essa compreensão veio por parte de todos terem contato com o budismo. Até a família da Betânia entendem e respeitam.
Com relação a organização, que era outra coisa que me preocupava, pois sou membro e participo desde muito novo. Sabia que não havia o que me questionar, mas não sabia como seriam as reações, e estão sendo muito positivas, não tenho o que reclamar da minha comunidade. As minhas responsáveis e as demais me receberam de braços abertos, na minha verdadeira divisão. Estou muito feliz. A organização pra mim é essencial, pois aqui é a forma como vou poder entrar na sociedade como realmente sou.
Até agora contei o que me aconteceu do ano passado até o momento. Resumi muito, pois estes meses foram montanha russa, sem freio, tive muitas desilusões, muitas tristezas, muito preconceito, mas também tive muita proteção, principalmente da quantidade de amigos que surgiram.
Eu sabia que para revelar a mulher que estava escondida, eu sabia que iria mexer em muita tristeza; iria ver uma criança de 4 anos sendo oprimida e criando um medo enorme que lhe marcaria por toda vida; iria ver uma criança sendo abusada; iria ver uma criança usando os saltos da mãe escondida, porque já sabia que era “errado”; lembraria desta criança pedindo a uma fada madrinha para lhe transformar em menina.
Desde muito cedo sabia que não poderia ser menina, que teria de viver como menino, fui crescendo desta forma, tinha medo de que soubessem de algo, evitava qualquer coisa que fosse feminino. Cresci uma pessoa tímida e introvertida, evitava relações com as pessoas, principalmente contatos físicos. Eu sabia que era diferente, não me entendia direito, não tinha referências, não se falavam em transgêneros, só existiam travestis.
Bom, fui crescendo assim, logo seria alto e forte, então queria esquecer tudo, queria me mudar por dentro, não sentir o que sentia. Me sentia uma montanha, mas por dentro era um vulcão.
Eu criei meios de para poder viver, o Nivio existia, era minha fortaleza, é ele quem todos viam. Me olhava no espelho e via o Nivio, não eu, isto é outra coisa que machuca as pessoas trans, a disforia com seu corpo, espelho é algo que te machuca todos os dias. As pessoas me falam, você é tão bonito, tem razão, tenho o corpo que muitos homens gostariam de ter.
Já me falaram que eu quero virar mulher, na verdade eu nunca fui homem, apenas me comportava como um, todo jeito que me comportava era vigiado, pensado, cada movimento, detalhe, jeito de falar e andar, de sentar. Então, não é quero virar, eu sou, eu entendo cada sentimento feminino, eu sei o que todas as mulheres passam, a luta com a beleza, com a sociedade machista. Lembro da minha mãe falando que é muito mais fácil ser homem. Para a sociedade, ser mulher trans é como não querer ser algo forte e corajoso para ser algo delicado e frágil, a sociedade pensa que é um desrespeito não ser da forma como nasci. Mas se pensarmos bem, a verdadeira coragem está nas mulheres, nas suas lutas, como mãe esposa e o verdadeiro desrespeito está no machismo contra todas.
Então, é isso minhas amigas, este é um breve relato, espero poder lutar com todas, espero que compreendam e me aceitem. Sei que ainda tenho muito caminho a percorrer, muito preconceito a vencer, ainda tenho uma sociedade para enfrentar, mas da mesma forma que eu, há muitos como eu.
Finalizando, no discurso de Ikeda Sensei, Adaptado do Diálogo sobre a Juventude, publicado em japonês em março de 1999 e publicado no Brasil Seikyo, Edição 2293, 26/09/2015, pág. B3 / Encontro com o Mestre,  ele fala:

A primavera se aproxima. As ameixeiras estão floridas, os pessegueiros desabrocharam e logo será a vez das cerejeiras. O poeta do romantismo inglês Shelley disse: “Se o inverno chegou, a primavera não poderá estar distante”. Por mais longo e rigoroso que seja o inverno, a primavera sempre vem em seguida. Essa é a lei do universo, a lei da vida.

Isso também se aplica a nós. Caso pareça que estamos suportando um inverno interminável na vida, não devemos perder a esperança. A primavera chegará sem falta, contanto que tenhamos esperança. Primavera é a época do desabrochar.

O budismo, como disse muitas vezes, ensina o princípio da “cerejeira, ameixeira, pessegueiro e damasqueiro” (OTT, p. 220). A cerejeira possui sua beleza distinta, a ameixeira sua delicada fragrância. A flor do pessegueiro possui uma cor adorável e o damasqueiro causa admirável encanto. Cada pessoa tem uma missão singular, uma personalidade e maneira de viver únicas. É importante reconhecer essa realidade e respeitá-la, pois essa é a ordem natural das coisas. No mundo das flores, é assim que funciona, e miríades de flores desabrocham harmoniosamente em rica profusão.

Infelizmente, no âmbito humano, as coisas nem sempre acontecem dessa forma. Alguns consideram impossível respeitar os que são diferentes, portanto, os discriminam, intimidam e perseguem, violando seus direitos. Esta é a causa de grande parte do sofrimento e infelicidade do mundo.

Todas as pessoas têm o direito de se desenvolver, de revelar seu pleno potencial como seres humanos, de cumprir sua missão neste mundo. Cada um tem esse direito, assim como qualquer outra pessoa. Esse é o significado de direitos humanos.

Desprezar e violar os direitos humanos das pessoas destroem a ordem natural das coisas. Precisamos nos desenvolver e nos tornar pessoas que prezam e respeitam os direitos humanos.

Muito obrigada a todas.




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