O medo enraizado

Dentro de toda minha transição que não é nada fácil, estou passando por um outro grande processo, que provavelmente descreverei mais tarde. O que me levou a escrever duas vezes no mesmo dia, além de tentar olhar pra dentro de mim e matar os demônios é que hoje na parte da manhã ainda entorpecida pelo sono, tive uma conversa longa com uma amiga também trans (só uma ressalva: a questão de designar é "trans" é somente para ilustrar que esta no mesmo processo que o meu, porque na parte mais singular é simplesmente mulher, ponto), que durou algumas horas, como ela esta a frente de mim na transição, e como ela mesma colocou temos um delay, pois temos situações muito parecidas, então escutei coisas que precisava ouvir e coloquei coisas que precisava expor. Outro dia coloquei que somente uma trans entende outra trans, porque há questões muito específicas que somente quem passou pode dizer como se sente e entender.
O assunto que me fez querer escrever e que foi um ponto em comum, é o MEDO. O medo é algo que me acompanhou por toda a vida e que foi sempre uma coisa que tive de combater e de muitas vezes recuar diante dele.

O medo aos 4 anos

Eu já devo ter comentado que minha memória de infância é uma colcha de retalhos, não lembro de muita coisa, ou muita coisa foi apagada, restando apenas sentimentos e que por isso tive de recorrer a terapia e uma regressão. No processo de regressão, ví uma criança de quatro anos que por uma brincadeira do irmão mais velho leva um susto enorme e que por isso mostrou um lado que não era de menino, por isso foi profundamente marcado e o medo ficou enraizado. Esse fato foi confirmado por meu irmão mais velho, assim que revelei a ela posteriormente. O medo a partir de então foi algo constante, tinha medo de tudo. A partir de então muitos outros fatos marcantes aconteceriam.

O Programa

Como somos duas Nerds, falamos muito em linguagens técnicas de informática, chegamos a uma ideia que a nossa "versão" masculina era como um programa de computador, na qual ele exercia as funções de homem. Como falamos, nosso cérebro emulava uma cérebro masculino, com o tempo ficávamos bom nisso, pois sempre reescrevíamos o programa toda vez que algo não dava certo, as falhas eram sempre no âmbito dos sentimentos. Lógico que isso é somente uma alusão sobre o que era ser homem. Minha vida como homem era uma fantasia, que usei para enfrentar o mundo, ser alguém sem dar explicações, ter um espaço na sociedade machista, aproveitar um corpo muito másculo.
Algumas vezes meu programa homem tinha falhas, não conseguia lidar com algumas situações e geravam mais traumas, que acabava jogando para eu lidar com a situação e assim criou se um acumulo de traumas. Toda vez que pensava sobre minha vida era olhar meus demônios de frente, coisa que não gostava de fazer.

O assumir

Quando eu já não aguentava mais emular o homem, o medo tornou-se mais forte, o que seria de mim? Como faria? O que os meus filhos falariam? Como a sociedade reagiria? etc, eram muitos os questionamentos, tenho medo do que vem, do que vou enfrentar, tenho dos que meus filhos podem sofrer, do que minha esposa pode sofrer e principalmente do que será de nós.

Decisão

Hoje é um pouco diferente, após ter olhado todos os traumas de perto, ter exorcizado vários demônios, os medos parecem cada dia que passa mais leves. Estou decidida, isto é um ponto, não vejo como voltar atrás, só tenho um caminho e como disse antes, estou caminhando, espero que as pessoas caminhem comigo, quem esta vindo, esta aprendendo muito. 

Um grande beijo a todxs!!!!!



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Gênero x sexualidade

Vivendo o luto

Bela saudade